abril 2013
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GABRIEL.
Eu tive várias conversas com você, príncipe. Te contei desde os primeiros minutos muito sobre o seu pai, sobre seus avós. Te contei também sobre como era a praia quando tinha tatuís, sobre as músicas trágicas da infância (como atirei o pau-no-gato), sobre ter uma fraldinha preferida que dura até quase os 10 anos (será que você ainda tem?). Eu engatei com você falatórios desenfreados pra te...
PEDRO.
Quando eu era pequena, minha brincadeira favorita era a de “explorar pequenos mundos”. Meu irmão mais velho que inventou. Não “podia” ser nem grandes e nem médios mundos, apenas os pequenos. Fingíamos que éramos reis e saíamos correndo atrás de um suposto tesouro em algum pequeno lugar, que sempre era o jardim de inverno da minha avó ou a casa de máquinas dos fundos da...
DO PARAISO iii.
Cê me olha, eu te olho. Cê me abraça, eu te abraço. Vento. Mar. Nossa cama tem ondas calmas, os lençóis desgrenhados, uma toalha molhada, uma bermuda usada, uns cabides na parede. Mergulho. Olho de mar. Velejo. Amar é bom. Teus dedos dos pés escalam minhas canelas, minhas mãos avançam tua nuca. Tua boca abafa nossa cúpula. Teu nariz encontra uma reentrância de pele quente. Nossa ilhota. Nosso...
BUSCANDO.
Para mim, se há um verbo que vem junto com amor é o “ter”. E um verbo que vem junto com desejo é o “querer”. No amor, nós queremos ter, queremos conhecer o amado. Queremos minimizar a distância. Queremos diminuir o espaço. Queremos neutralizar as tensões. Queremos proximidade. Mas no desejo, temos a tendência de não querer voltar aos...
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“Alguma vez, talvez, encontraremos refúgio na realidade verdadeira. Entretanto posso dizer até que ponto sou contra?”
Alejandra Pizarnik.
vermelho.
Quando eles esvaziam o palco para o intervalo, a cena permanece aberta e o vermelho que começara em meados do primeiro ato continua a cair em mim. Quando as pessoas deixam as poltronas para se encaminhar para os banheiros, os bares e os corredores. Quando as campainhas soam para o segundo ato e ainda há vermelho em mim. De repente eles voltam à cena vermelha e se arrastam e dançam e cantam e...
do paraiso II.
ele sempre dorme depois de mim.
tão boa sua cama, especulo se sonha comigo, me sinto num filme (filme dele?)
tão bom dar bom dia ainda deitada, ver as partes relaxadas, tão bom dar bom dia domingo (sábado não mais)
ele (sempre) sonha depois de mim.
março 2013
3 publicações
do paraiso i.
a sandália nova dele branca
(que costumo sujar ao pisar sem querer)
fica sempre do lado de fora do quarto
como cães que sabem que dali não podem ultrapassar
de repente a chuva mingua os planos
do passeio do migulim, agora minguado
e da calça jeans com a tal sandália
uma combinação entre-estações
(exatamente como estamos agora)
para não se sentir nem tão lá nem tão cá
um, dois, tres.
Coisas que me dão tesão: - banho de mar - molhar o pincél na água antes de pintar - a mão dele Coisas que adoro: - quando um estranho me dá bom dia - acordar e não abrir o olho - gifs Coisas que não gosto de ver: - animal morto - filme de terror - que fiquei menstruada Coisas que me dão medo: - anão - bate-bolas - rato Coisas que me dão aflição: - passar a mão na calça jeans - a palavra vácuo...
cosca.
tenho passado a língua no céu da boca. meu céu. só meu. quase encosto no dente doído. esse pedacinho sagrado e sangrio (nos últimos dias).
se alguém um dia sofrer de dor de dente, ou se alguém um dia sofrer de tristeza mesmo (grande ou pequena) sugiro fazer cosquinha no céu da boca, mas mais próximos aos dentes. dentes são raízes. raízes próprias.
[a risada será inevitável, e daí o ridículo...
janeiro 2013
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folclore reencenado.
Fecho os olhos e seu rosto me inunda sem pedir licença. Esse sorriso estúpido que invade os lábios – quando nas ruas, no ônibus, quando não percebo – é de intensidade e frequência proporcional ao aperto no peito quando penso se sim, se não, ou se e se…? Inicio minha coleção de palavras: cacofonia, desfraldar, pestanejar, negligenciar. Penso cenas e pessoas em câmera lenta, penso o...
dezembro 2012
1 publicação
nove de dezembro.
tem essa tosse que vem de tempos em tempos. explode junto com uma rosácea na bochecha. todas as soluções disponíveis, das sementes ao silêncio, não vão resolver: a tosse é a tentativa de expulsão, ainda que você não esteja aqui. a rosácea, dizem, não tem cura. como se alguma coisa tivesse.
é lindo como os portugueses não usam gerúndio e precisam do infinitivo do verbo. outro dia, li em um...
novembro 2012
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pequenas particulas algodoadas.
Eu não tinha nove anos e já sabia que a lenta cadência das pequenas partículas algodoadas prefigura o que ressente o coração durante uma grande alegria.
A duração desacelera e se dilata, o balé se eterniza na ausência de choques e, quando o último floco pousa, sabemos que vivemos esse fora-do-tempo que é a marca das grandes iluminações. Quando criança, volta e meia eu me perguntava se me seria...
MEIO-FIO.
Você não dá tempo para inverter. Vamos dançando sem dar trégua. Eu piso pro lado e você me arrasta de volta.
Faço de novo para alongar o processo. Para te testar. Você não se antecipa. Eu me desfaço em carinhos, não para chamar atenção, mas porque sou assim. Você só me olha e não se aproxima. Diálogos silenciosos. O meu rosto que agora vira. Sua mão que nunca alcança. Seguimos no...
outubro 2012
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NAS POUCAS CORES.
Assim que me deito eu penso em levantar, em levitar. Mentira. Ando sonhando em me lançar ao mar. O mar me transforma. E me regressa. Me regressa ao amor. E esse regresso não é fácil. Para onde se vai? Ninguém que vai, volta igual. Ir é transformar pra algo que não sabemos o que é. Ao que fica, a readaptação.
Nos últimos dias o Rio fez questão de estar cinza. E eu, que ando numa onda...
frases curtas na primeira pessoa.
Comecei a escrever um texto para o ano que vem. Tentava de forma doce, ou engraçada (dependia do humor do dia), montar uma lógica bacana de como dialogar com um ano que ainda não existe. Comecei a contar a doismiletreze algumas novidades de doismiledoze (curioso como ignorei todos os outros anos). Mas uma pergunta surgiu: pra que contar pra doismiletreze o que tenho vivido agora? Parei...
setembro 2012
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CATARSE.
meu olhar vazio. minha voz vazia. te olho, olha eu, me olha? não. negação dói. dói porque te cresce, porque te adulta. vazio dói. dói porque te limpa, porque te lustra. silêncio dói. dói porque te mostra, porque te livra. livra. livre. um livro. primeiros versos: “morreu de que? pobre moça, se sufocou com as palavras que nunca disse.” dou um grito. agora vejo.
tresde.
“A dor é em preto e branco como naqueles bons, mudos e tristes filmes do expressionismo alemão.
A salvação é em 3D, mais que léguas submarinas, é uma montanha russa, um carrossel de parque de diversão, uma roda gigante.
Ou uma simples caminhada pelas ruas com um sorriso enigmático e um bom ventinho na cara.“
oi, 3D.
AZUL.
Sentir saudade é indefinível. Dá um aperto no peito (a respiração pode vacilar). Sinto que tem muito azul em torno desse sentimento. Mas digo isso porque essa cor não sai da minha cabeça. Tenho escolhido manter ela em mim. Es-co-lhi-do. Eu busco a saudade. Bus-co. Procuro por aquele dia na minha memória, por aquele cheiro, por aquela música. Ou seja, eu bus-co. No mínimo estranho. No mínimo...
agosto 2012
4 publicações
MUSCULO.
Ela não confia em quem nunca escreveu uma carta de amor. Não diz isso por ser uma moça piegas, não, não é. Prova disso é que ela odiaria uma serenata, por exemplo. Ela explica que uma carta de amor pode ser escrita em um guardanapo, que pode conter apenas uma palavra… e que ainda assim é uma carta de amor. Ou, simplesmente, um gesto de amor. Ela diz que tem cansado da falta de coragem,...
para virar gente grande.
cabelo se joga fora. a gente corta e enterra e espera nascer árvore. as plantas da varanda só crescem quando a gente canta. lágrima se congela pra derramar na hora certa. o beijo da mãe se guarda no bolso.
um bonequinho na fronha pra colecionar pesadelos,
e despejar pela janela afora.
uma casa nova,
para adultar.
para cuidar.
para virar gente grande.
para lívia.
signo de mama.
o que cê tá fazendo? pára. sai daí. você é dor que dói. nunca senti tanta dor. ela sente lá, no corpo. e eu sinto aqui no meu coração. no músculo que mais sangra e não sangra ao mesmo tempo, sabe como é?
não, você não sabe, porque você não é coisa. você não é gente. você não é signo. você só é tristeza.
o que cê tá fazendo? pára. me ouve. porque olha, se você ficar aí, eu caio. se você ficar...
a conta, por favor.
a vida desse lado passa devagar.
descobri que sinto necessidade de fazer coisas estranhas, das quais não vou te contar. mas te dou uma dica: eles contam passos. eu conto pássaros. mas não te conto.
tudo pra tentar achar a tal felicidade…
felicidade: felina ilícita.
cada pedaço do tempo eu me dedico a tanta coisa que não quero, e aí digo que minto, digo que a vida desse lado passa...
julho 2012
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saindo do armario.
Abri o armário procurando um vestido específico e vi um que eu usei com você. Passei blusas, saias e calças e qual foi minha surpresa? Outro. Este ainda com seu cheiro (sim…). Fechei os olhos, mergulhei o rosto entre os babados e respirei fundo. Não achei o que estava procurando e comecei o processo todo de novo. Mais um vestígio de nossa história passou pelas minhas mãos....
amor bastante.
Basta um instante
e você tem amor bastante. (Leminski)
abril 2012
3 publicações
abre-fecha.
Já pensou quanta coisa a gente guarda em gavetas? Não estou falando de quinquilharia, de durex, grampeador, roupa. Estou falando daquilo que a gente se esforça para tentar separar, colocar nome: isso é amor, isso é amizade, aquilo lá virou rancor, daí tascamos etiquetas, para dar sentido. Fecho, não quero nunca mais abrir. Eu tenho dentro de mim um armário maior que esse. Acabei de abrir,...
encosta tua cabecinha no meu ombro e chora.
não é a primeira vez que eu encosto a cabeça no seu ombro, me entregando por completa, indefesa. não há verdade maior a aflorar. não tem eu te amo que seja mais importante. é na capacidade de entregar ao outro parte da sua vida que começa qualquer coisa que valha a pena.
gostar é render-se, é confiar a ele sua felicidade. se apaixonar é perder o controle, descontrolar-se.
amar é...
carta a ti.
Me acostumei a te saber assim: um cara calmo mas com asas nos pés e uma animação pra falar (com as mãos). Por meses achei que você fosse uma dessas pessoas que não podem ser detidas, e no fundo sempre tive certeza de que você sequer dormia. Pra contabilizar tudo o que eu sabia que você já tinha sido, eu precisaria de umas cinco vidas com uma média de 6 horas de sono por noite. Mas você...
março 2012
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peguei
“Pensei numa rima que era boa mas já esqueci Passou, deve estar por aí Pelo ar Era uma rima boa, era sim Mas quando dei por mim Tinha ido, passado, Assim, Pluf! É do tempo, do espaço, de ninguém… Ou de todos? De mim não é… Que eu deixei passar Ai, rima que era boa, não dá pra voltar? Pra eu voltar no tempo e te pegar?”
Lucas Noleto
fevereiro 2012
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ha momentos.
“Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la. Sonhe com aquilo que você quiser. Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que se quer. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para...
janeiro 2012
1 publicação
amanhecer.
É difícil quando construímos certezas mais do que absolutas no nosso coração. E acostumados com o dia a dia, com as mãos dadas, com as trocas de carinho, já não sentimos mais aquela palpitação, que de tanta, quase faz sair pela boca o que é do peito.
A mão já não treme. O sangue não sobe, as palavras não somem. Elas estão sempre ali, no ir e vir da vida, que passa. É paixão, sim. Muita paixão. É...
dezembro 2011
1 publicação
ciclo.
Tudo deu errado com os músculos que sustentam e envolvem a escápula direita. Todo mundo conversa sobre artes plásticas com a propriedade de quem comenta o tempo no elevador. Todo mundo bebe vinho e trabalha com cultura, e eu só sinto uma dor lancinante que me define como alguém que sofre. Muito.
Felicidade, geralmente, só sei no dia seguinte, quando fico pairando em vez de andar.
...
novembro 2011
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poeminha amoroso.
“Este é um poema de amor tão meigo, tão terno, tão teu… É uma oferenda aos teus momentos de luta e de brisa e de céu… E eu, quero te servir a poesia numa concha azul do mar ou numa cesta de flores do campo. Talvez tu possas entender o meu amor. Mas se isso não acontecer, não importa. Já está declarado e estampado nas linhas e entrelinhas deste pequeno poema, o...
sob o peso dos meus amores.
quero, mais forte que nunca, uma toca quentinha, perto das árvores e do mar.
quero cuidar de meu coração.
vou acordar com a cama encharcada, de água meio doce, do choro.
vou acordar daqui um tempo. vou dormir esperando ser mês que vem. ou mês passado.
mas hoje, hoje não. hoje eu quero deixar passar.
quero dormir sonhando na pessoa que estou a descobrir.
quero dormir e acordar mais velha.
...
adultar.
costumava eu, sentir claro e frequente, pequenos saltos de existência, hora criança, hora adulto. . faz tempo que não pulo. . será que adultei de vez? . ou será que minha existência é uma fusão de tais, e agora só me resta pular, no mesmo pé, no mesmo ponto, pra cima, apenas, pular pro céu?
agosto 2011
4 publicações
cenario, canario.
Engraçado como o caminhar das horas me afasta do dia. Me situo em algum segundo, e espero que ele me segure naquele instante eterno que é a mudança de cenário: diurno para noturno. Cenário mutante das horas vagas, sempre tão iguais e desonestas com uma jovem que só queria ser Lispector. Ou até mesmo Pessoa, e ao invés de criar, destituiu-se de sentido. Fico vendo os canários pela janela, vendo...
frio.
Os versos de hoje são sorridentes E banhados em frio. E pela primeira vez em tempos, Digo que frio me faz bem. Meu silêncio só agradece Aos céus, ao sol, à noite e ao luar. Meu silêncio agradece à chuva E aos teus lábios. Meu silêncio é simples, E é tudo que eu tenho no dia de hoje. Meu silêncio é isso, E é tudo que tenho para te dar. Meus versos sorridentes, Misturados ao meu silêncio...
eu quis.
eu já estava ali antes. você também.
quis minhas mãos dadas, quis o seu sorriso me olhando. quis o seu abraço molhado de pôr-de-sol…
vento geral.
vem comigo, é claro o tempo e sopra o vento geral. vamos devagar, remando na água negra transparente, tomando todo cuidado para que a proa do casco não finque a fímbria de luz. vem comigo descobrir, as fontes verdes da vida.
mas contigo traz amor, para com dor aprender.
julho 2011
2 publicações
um ultimo sonho.
Descrevo em balbucios um último sonho: sonhar acordada.
E desfaço-me das letras sem receio de me desfazer junto a todas elas de uma só vez. Sem valer, nem ser, sou os campos e os sonhos que me valem os sorrisos que custam a sair lábio afora. Eu sorri aquela noite.
Não culpo ninguém.
sem peso.
Não admito o silêncio como réplica. Argumentação, talvez. Atrás do meu coração sua voz se pousa, dorme. Sua voz me arranha alguma coisa. Pode ser tanto minha alma quanto minha loucura.
Sim. Recomeço aqui qualquer coisa, sem sentido ou recompensa.
Sem peso. De cabelos penteados e unhas vermelhas.