eutamarindo.

doce e acido ao mesmo tempo. aqui, agora.

abre-fecha.


Já pensou quanta coisa a gente guarda em gavetas? Não estou falando de quinquilharia, de durex, grampeador, roupa. Estou falando daquilo que a gente se esforça para tentar separar, colocar nome: isso é amor, isso é amizade, aquilo lá virou rancor, daí tascamos etiquetas, para dar sentido. Fecho, não quero nunca mais abrir. 
Eu tenho dentro de mim um armário maior que esse. Acabei de abrir, certa de que nunca te acharia. Mas você ocupa mais de uma gaveta ao mesmo tempo.


maldito.

encosta tua cabecinha no meu ombro e chora.


não é a primeira vez que eu encosto a cabeça no seu ombro, me entregando por completa, indefesa. não há verdade maior a aflorar. não tem eu te amo que seja mais importante.
é na capacidade de entregar ao outro parte da sua vida que começa qualquer coisa que valha a pena.


gostar é render-se, é confiar a ele sua felicidade.
se apaixonar é perder o controle, descontrolar-se

amar é simbiose epifânica.

i want you. (he’s) she’s so heavy.

carta a ti.


Me acostumei a te saber assim: colorido, inquieto, com asas nos pés e uma animação pra tanto falar. Por meses achei que você fosse uma dessas pessoas que não podem ser detidas, e no fundo sempre tive certeza de que você sequer dormia. Pra contabilizar tudo o que eu sabia que você já tinha sido, eu precisaria de umas cinco vidas com uma média de 6 horas de sono por noite. Mas você conseguia tudo aqui, perambulando pela cidade.
Sempre gostei de alguma coisa em você que eu nem sabia explicar. Os cabelos, óbvio. Mas não dá pra justificar uma paixão assim. Ou pode? Numa eternidade inventada pra nós, eu ficaria dias a fio fazendo cafuné na sua cabeça, enquanto você, pioneiro das curvas do meu pescoço, ia com o nariz e a boca nas minhas saboneteiras. E só. Sempre gostei, também, do meu nome na sua voz. E de toda a curiosidade que eu sentia quando você tirava da manga tantas ideias, assuntos, filmes, músicas e histórias, além de uma doçura que algumas pessoas não acreditam que você seja capaz de ter. Sempre gostei dessa calma que, numa distração, você despejava perto de mim.
Nunca soube exatamente onde te colocar no meu mundo. Não saberia te classificar. Nunca consegui fazer sentido de você, e também nunca encontrei uma lógica que sanasse os olhares confusos dos amigos que me viam sumir com você por aí.

Se eu não estiver sendo clara, não é por falta de afeto, é só por não saber como.

te beijo,
eu.

peguei


“Pensei numa rima que era boa
mas já esqueci
Passou, deve estar por aí
Pelo ar
Era uma rima boa, era sim
Mas quando dei por mim
Tinha ido, passado,
Assim,
Pluf!
É do tempo, do espaço, de ninguém…
Ou de todos? De mim não é…
Que eu deixei passar
Ai, rima que era boa, não dá pra voltar?
Pra eu voltar no tempo e te pegar?”


Lucas Noleto

ha momentos.

“Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.

Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.

O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.

A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.”

Clarice Lispector

amanhecer.

É difícil quando construímos certezas mais do que absolutas no nosso coração. E acostumados com o dia a dia, com as mãos dadas, com as trocas de carinho, já não sentimos mais aquela palpitação, que de tanta, quase faz sair pela boca o que é do peito.

A mão já não treme. O sangue não sobe, as palavras não somem. Elas estão sempre ali, no ir e vir da vida, que passa. É paixão, sim. Muita paixão. É carinho, desses que aquece o coração, que faz a gente querer de novo o que já foi.

Mas aí, quando de repente, numa esquina qualquer dessa vida, o coração volta a bater… Haja coragem.

Haja coragem para acreditar que o tempo daquele amor passou.

Porque não tem jeito. Paulinho já disse. Amor é assim, chega devagarinho, em silêncio. Mas quando chega, faz tudo mudar. E quando a gente da por si, ele já se amanheceu e se enluarou e já ta todo ensolarado dentro de você.

Com aqueles dois foi mais ou menos assim.

Eles se viram, se gostaram, se quiseram. Pode não ter sido na primeira ou na segunda. Mas na terceira, já não tinha mais disfarce que funcionasse. E depois era um tal de te olho aqui, samba sambei ali e vamos comigo pra lá. Muito jogo, muito medo, muito não. Muito bom.

Ela não sabia mais disfarçar a quentura no coração. Ele, por sua vez, nunca conseguiu assumir no fundo dos olhos de jabuticaba dela, tão cheio de infinitos, o que sentia realmente.

Era onze e meia da noite, de um domingo nublado, ela de branco. Ele liga. Ele diz to aqui. Vamos? Ela vai. Mas confirma: desencanto.

ciclo.

Tudo deu errado com os músculos que sustentam e envolvem a escápula direita.  Todo mundo conversa sobre artes plásticas com a propriedade de quem comenta o tempo no elevador. Todo mundo bebe vinho e trabalha com cultura, e eu só sinto uma dor lancinante que me define como alguém que sofre. Muito.

Felicidade, geralmente, só sei no dia seguinte, quando fico pairando em vez de andar. 

 Felicidade é mais caro, me dá muita solidão e um problema que ainda não sei enfrentar. Fico uma tarde inteira sozinha na praia, tentando guardar as sensações e barulhinhos que o corpo faz, numa tentativa de reter tudo o quanto for possível, segurar com os dentes e as mãos, porque não quero esquecer, não quero perder nenhum detalhe, quero guardar. 

poeminha amoroso.

“Este é um poema de amor 
tão meigo, tão terno, tão teu… 
É uma oferenda aos teus momentos 
de luta e de brisa e de céu… 
E eu, 
quero te servir a poesia 
numa concha azul do mar 
ou numa cesta de flores do campo. 
Talvez tu possas entender o meu amor. 
Mas se isso não acontecer, 
não importa. 
Já está declarado e estampado 
nas linhas e entrelinhas 
deste pequeno poema, 
o verso; 
o tão famoso e inesperado verso que 
te deixará pasmo, surpreso, perplexo… 
eu te amo, perdoa-me, eu te amo…”

Cora Coralina

sob o peso dos meus amores.

quero, mais forte que nunca,
uma toca quentinha,
perto das árvores e do mar.

quero cuidar de meu coração.

vou acordar com a cama encharcada,
de água meio doce,
do choro.

vou acordar daqui um tempo.
vou dormir esperando ser mês que vem.
ou mês passado.

mas hoje,
hoje não.
hoje eu quero deixar passar.

quero dormir sonhando na pessoa que estou a descobrir.

quero dormir e acordar mais velha.

quero dormir e acordar segura,
forte,
de cintura bonita,
de cabelos mais longos,
de voz mais grave,
de toca feita.

cuidada.

adultar.

costumava eu,
sentir claro e frequente,
pequenos saltos de existência,
hora criança,
hora adulto.
.
faz tempo que não pulo.
.
será que adultei de vez?
.
ou será que minha existência é uma fusão de tais,
e agora só me resta pular,
no mesmo pé,
no mesmo ponto,
pra cima, apenas,
pular pro céu?